Tuesday, 25 January 2022

sobe o pano.

Começa hoje esta tentativa de dramaturgia. Numa madrugada em que estou acordada após ter ido dormir às 20h00, ao final de um dia a lutar contra o peso do sono nos olhos. Sinto, há muito tempo, que as palavras esperneiam dentro da minha cabeça e me exigem um enorme esforço para as manter aprisionadas, uma energia que poderia canalizar para outras coisas se, simplesmente, aceitasse deixá-las livres.

A vida detrás da cortina será isso. Um exercício catártico, terapêutico. Uma espécie de journaling sem atenção a qualquer pretensa qualidade literária ou temática. Um blog como chave de libertação do caos que mora no sótão. Também poderia fazê-lo da forma tradicional, com caneta em papel, mas doem-me as mãos e não consigo manuscrever à velocidade a que penso. Também não consigo dactilografar a essa velocidade, mas aproximo-me um pouco mais.

Este espaço será também abrigo, partilha e aceitação, onde aprendo a enfrentar o facto de a vida de todos os dias, a minha, pelo menos, ser assim: monótona e caótica, emocionante e aborrecida, amedrontada e sonhadora, talvez como a sua própria protagonista. E como os protagonistas têm que ir à boca de cena, nem que seja no final do espectáculo para agredecer ao público, aqui "detrás da cortina" será também espaço de exposição, lugar onde aprender que ao mostrarmo-nos não acontece nada.

Escrevo isto enquanto deveria estar a fazer um trabalho para entregar, cuja deadline foi há dois dias. Talvez em parte para provar a mim mesma que o bloqueio mental não é geral, mas sectorial, que ainda consigo escrever, mas talvez, simplesmente, não me apeteça escrever um plano de comunicação interna para uma organização semi-fictícia. Para demonstrar que posso permitir-me fazer coisas só porque me apetece e não por obrigações externas ou auto-impostas, e que tudo isso é uma forma da sacrossanta liberdade que tanto busco há mais de trinta anos (desde antes até de imaginar o que seria tal palavra).

Ontem - enquanto deveria estar também a fazer o mesmo trabalho, mas ainda sem ter encontrado vontade - acabei de ver a série 'Freud' na Netflix. Embora a série seja essencialmente uma viagem entre o grotesco e o bizarro, com pouco sumo no que à teoria freudiana diz respeito, atentei numa frase que o personagem principal diz no final: algo do género de nos tornamos aquilo que queremos ser, no mais fundo do nosso inconsciente. Fiquei a pensar naquilo, a perguntar-me se o meu inconsciente quererá que eu me sinta uma incapaz, e por que razão isso acontece, se for, de facto, o caso. Ainda não encontrei a resposta.



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