Thursday, 30 October 2025

Italia, 2023

Durante tutti quei giorni in Italia non ho fatto altro che pensare a lui. il suo sorriso, la delicatezza, la fortuna che ho avuto di aver conosciuto una persona così nella vita e la tristezza di non poter essere più di quello che è stato (ed è stato tanto): un bel sogno in due atti in quelle due notti di estate a Roma. I baci, il tocco, le parole, l'energia tra due corpi che appena si toccano, pure essendo pienamente coscienti della presenza dell'altro.


Wednesday, 29 October 2025

EXISTÍAN TUS MANOS

Un día el mundo se quedó en silencio;

los árboles, arriba, eran hondos y majestuosos,

y nosotros sentíamos bajo nuestra piel

el movimiento de la tierra.

Tus manos fueron suaves en las mías

y yo sentí la gravedad y la luz

y que vivías en mi corazón.

Todo era verdad bajo los árboles,

todo era verdad. Yo comprendía

todas las cosas como se comprende

un fruto con la boca, una luz con los ojos.

ANTONIO GAMONEDA 

Saturday, 4 October 2025

chegamos atrasados ao tempo das ruas

Chego, eu e tantos outros - que, no entanto, são muito poucos - ao Martim Moniz onde começa a manifestação, convocada para as 15h00. Já passam dez minutos da hora marcada e ainda está pouca gente. nesta manifestação, como símbolo desta sociedade atual, chegamos tarde (quem sabe se demasiado tarde?) aos protestos nas ruas. 

Chega tarde o ímpeto provocado pelo desconforto de ficamos apenas em casa a assistir passivamente e a partilhar mensagens que ninguém lê nas redes sociais. por muito que nos comovamos, que choremos ao ver o sofrimento do ser humano, sabemos que esse ativismo de sofá é insuficiente, não produz mudança, não traz resultados.

E assim, ao fim de quase dois anos, milhares de horas de imagens e comentários nos media, uma inação revoltante de todos os governos ocidentais, e, finalmente, a detenção de ativistas europeus ao tentarem quebrar o bloqueio por via marítima, parece que os povos começam a despertar ligeiramente.

Contam entre um e dois milhões de pessoas por toda a itália no dia 3 de outubro em manifestações e greve geral. são muitos. não chegam.

Saímos do sofá para nos sentirmos um pouco mais aliviados na nossa consciência, mas o alívio não nos tira o peso da impotência, o peso do absurdo de tudo isto - de alguns dos manifestantes viverem os protestos como se de um festival de música se tratasse.

Não consigo evitar o sentimento de ambivalência perante tudo o que vejo: estas são as (poucas) pessoas que se dão ao trabalho de sair de casa para mostrar que não estamos anestesiados, as pessoas entre as quais me encontro e com as quais, ainda assim, pouco me identifico, na sua grande maioria.

Ouvi, antes do início do protesto, uma senhora de cabelos brancos explicar a um casal jovem que enfrentou a ditatura e que continua a sair à rua para mostrar que não tem medo, ainda que esteja preocupada com o que aí vem "para vocês e para os vossos filhos". falava com grande lucidez, dizia que "tiraram a consciência de classe às pessoas e elas nem percebem o que se passa" e questionava "nós não tínhamos liberdade e não tínhamos medo, agora vocês que supostamente têm a liberdade, têm medo de quê?". 

Achei a pergunta fascinante e, ao mesmo tempo, a resposta talvez óbvia. As gerações que nasceram em liberdade, como a minha, e em especial as pessoas dessas gerações que pertencem a uma classe média suficientemente privilegiada para terem horizontes de futuro, como eu, têm medo de perder o conforto em que estão habituadas a viver. Têm medo de perder a situação de privilégio que foi a única que sempre conheceram, e acreditam, ainda que sem disso terem consciência, que é mantendo o status quo que conseguem garantir essa situação. Julgam que se não pensarem muito no assunto, nas atrocidades que se passam longe, no outro extremo do Mediterrâneo, não poderão alcançar-nos, porque temos o suposto privilégio de estar num lugar pacífico e civilizado. Ingenuamente, preferem ignorar que o mundo do século XXI é inevitalmente interligado, e que mais cedo ou mais tarde uma espécie de efeito borboleta fará com que os problemas provocados de um lado do mundo, tenham consequências do outro lado. Mais cedo do que mais tarde, diria, porque já estamos a ver isso a acontecer.

A manifestação em Lisboa decorreu de forma essencialmente pacífica, como é apanágio dos portugueses, mas na Europa estamos já a ver manifestantes a serem agredidos pelas forças policiais, muitas vezes de forma gratuita e desnecessária, em países como Itália ou Alemanha, e outros a serem detidos por se manifestarem pacificamente em prol de associações que os governos entendem rotular de "terroristas", como acontece no Reino Unido. Vemos veteranos da 2.ª Guerra Mundial a serem detidos pela polícia por protestarem contra um genocídio e perguntamo-nos se serão imagens de inteligência artificial, já que no tempo atual temos de desconfiar até da autenticidade daquilo que vemos. 

Tentamos averiguar, procurar notícias nos jornais minimamente credíveis - e sabemos que os meios de comunicação, os jornalistas, quem faz uma mediação da informação e é responsável por verificar os factos estão sob ataque cerrado de quem pretende enfraquecer e dividir a sociedade - mas nem sempre conseguimos encontrar fontes mediáticas.

Wednesday, 28 August 2024

dias bons, noites tremendas - semanas estranhas.

têm sido dias intensos e estranhos.

a terra tremeu debaixo dos nossos pés, mostrando por breves segundos a nossa impotência e insignificância.

morrem pessoas à minha volta: pais e irmãos de amigos, tios de família, e a cada morte anunciada percebo que começo a perder fôlego na corrida à frente da morte. as pessoas que fizeram parte da minha infância estão, uma a uma, a desaparecer.

no meio de tudo isto (apesar de tudo isto que realmente importa e que devia ser suficiente para dar importância ao que importa) ainda tenho dificuldade em escapar aos picos de ansiedade provocados pela entropia laboral, sendo que agora tenho de preocupar-me não só por mim mas também pelas pessoas da minha equipa.

quero fazer as minhas coisas, organizar o meu pequeno universo físico e virtual para procurar alguma sensação de paz, mas falta-me a energia (a confusão mental e a tristeza e o medo sugam-me a energia). 

quero escrever para registar os episódios e limpar a cabeça, mas falta-me energia, concentração, tempo.

sinto as dores a intensificar-se nos músculos, a sensação de falhanço a aproximar-se, a necessidade de fuga a escalar inescapavelmente.

a confusão paralisa. o medo paralisa. falta uma força motriz intrínseca ou extrínseca que ajude a reagir.

talvez seja em parte o efeito de um mês estranho como agosto, agravado por esta série recente de eventos absurdos e aterradores.

se ao menos houvesse um amor para nos salvar do caos e não para nos lançar irremediavelmente nele.

Saturday, 11 May 2024

envelhecer

o tempo vai passando por nós e não sabemos exactamente o que fazer dele.

envelhecemos. pensamos que ficamos mais sábios, mas estamos apenas mais feridos.

contínua e irreparavelmente feridos.

a certa altura, sem nos termos apercebido, não conseguimos sequer separar a ferida daquilo que somos, de tal forma foi ocupando todo o espaço.

quando somos jovens, temos do nosso lado (ou deveríamos ter) a inconsciência da juventude, a intrepidez de quem não sabe que o futuro é curto e povoado de fantasmas do passado que se vão acumulando até formarem uma multidão maior do que a dos vivos que nos rodeiam. alguns de nós, porém, não chegam a ter esse privilégio.

vivem desde jovens atormentados por fantasmas que lhes são apresentados antes do tempo. os que os outros lhes impõem e os que eles próprios acabam por inventar, talvez na busca inglória de alguma companhia que lhes seja familiar.

buscamos a felicidade. imaginamo-la, mas parece que está sempre uns passos à nossa frente (e a morte sempre atrás de nós a uma distância que vai encurtando). uns anos adiante, com outras pessoas, com uma versão futura e melhorada de nós mesmos.

no fundo, talvez seja essencialmente uma questão de culpa. não sei exactamente de quê, mas desconfio que seja a culpa de não sermos perfeitos. de não sermos quem idealizámos ser e quem acreditamos que os outros esperam que sejamos.

é possível que "os outros" não esperem tanto de nós. que não estejam agarrados a uma noção de perfeição que em vez de libertar, oprime.

mas não sabemos. não temos como saber e não saberemos nunca, e essa falta de informação dilacera, principalmente as pessoas que já estão fragmentadas, esmagadas por essa culpa insidiosa e indizível.

a culpa surgiu como uma espécie de iluminação na última sessão de terapia e, de repente, é como se quase tudo fosse explicado pela sua existência.

todos os fracassos, toda a inquietude, toda a frustração, aparentemente, resultam de uma única fonte: a culpa que não se sabe onde está ou de onde vem, e por isso não se consegue agarrar.





Monday, 9 October 2023

'Stop all the clocks, cut off the telephone'

 

'Stop all the clocks, cut off the telephone'

Stop all the clocks, cut off the telephone, 
Prevent the dog from barking with a juicy bone, 
Silence the pianos and with muffled drum 
Bring out the coffin, let the mourners come. 

Let aeroplanes circle moaning overhead 
Scribbling on the sky the message He Is Dead, 
Put crepe bows round the white necks of the public doves, 
Let the traffic policemen wear black cotton gloves. 

He was my North, my South, my East and West, 
My working week and my Sunday rest, 
My noon, my midnight, my talk, my song; 
I thought that love would last for ever: I was wrong. 

The stars are not wanted now: put out every one; 
Pack up the moon and dismantle the sun; 
Pour away the ocean and sweep up the wood; 
For nothing now can ever come to any good. 

W H Auden

Thursday, 28 September 2023

o bar de jazz.

era um conceito de gosto, mais abstracto do que posto em prática.

no entanto, um conceito de gosto que tinha muito claro na sua mente e que transmitia sem hesitação como resposta às frequentes perguntas "que estilo de música preferes" ou "onde costumas sair à noite", que grassavam nas aplicações de encontros sempre que a conversa conseguia superar a barreira do "olá, tudo bem?".

e assim lhe respondera quando ele lhe perguntara algo sobre "em que rádio poderia ouvi-la a cantar", abrindo a porta ao tema do jazz, essa música que era para ela fonte de concentração, salvação e ânsia de libertação.

passaram dois ou três dias de mensagens esporádicas até ele sugerir de forma espontânea uma saída cultural para um concerto de jazz num bar que, para espanto dela, ficava a cinco minutos de casa (surpreendeu-se e recriminou-se secretamente pelo facto de não conhecer aquele bar, ao fim de oito anos a viver naquela zona de Lisboa), e após algumas confusões mentais com datas e agendas, lá se combinou o encontro, sem grandes expectativas de parte a parte.

o espaço era pequeno e agradável, com as luzes baixas durante o espectáculo a criar aquele ambiente que lhe relaxava os sentidos e estimulava uma sensação de casa. silencioso, sem ruídos de fundo além da música que se ouvia.

curiosamente, um dos dois músicos que actuavam naquela noite era uma pessoa com quem também fizera match na aplicação alguns dias antes, pela mesma altura em que conhecera a pessoa com quem se encontrava ali. um dos típicos perfis egocêntricos e self-entitled que responde à primeira mensagem para dizer que "é mais fácil pelo Instagram", ganhar uma nova seguidora para a divulgação do seu trabalho e nunca mais retomar o contacto.

a vida tem destas coisas curiosas: há, de facto, muitos peixes no mar e muitos homens nas dating apps.

Italia, 2023

Durante tutti quei giorni in Italia non ho fatto altro che pensare a lui. il suo sorriso, la delicatezza, la fortuna che ho avuto di aver co...