Saturday, 4 October 2025

chegamos atrasados ao tempo das ruas

Chego, eu e tantos outros - que, no entanto, são muito poucos - ao Martim Moniz onde começa a manifestação, convocada para as 15h00. Já passam dez minutos da hora marcada e ainda está pouca gente. nesta manifestação, como símbolo desta sociedade atual, chegamos tarde (quem sabe se demasiado tarde?) aos protestos nas ruas. 

Chega tarde o ímpeto provocado pelo desconforto de ficamos apenas em casa a assistir passivamente e a partilhar mensagens que ninguém lê nas redes sociais. por muito que nos comovamos, que choremos ao ver o sofrimento do ser humano, sabemos que esse ativismo de sofá é insuficiente, não produz mudança, não traz resultados.

E assim, ao fim de quase dois anos, milhares de horas de imagens e comentários nos media, uma inação revoltante de todos os governos ocidentais, e, finalmente, a detenção de ativistas europeus ao tentarem quebrar o bloqueio por via marítima, parece que os povos começam a despertar ligeiramente.

Contam entre um e dois milhões de pessoas por toda a itália no dia 3 de outubro em manifestações e greve geral. são muitos. não chegam.

Saímos do sofá para nos sentirmos um pouco mais aliviados na nossa consciência, mas o alívio não nos tira o peso da impotência, o peso do absurdo de tudo isto - de alguns dos manifestantes viverem os protestos como se de um festival de música se tratasse.

Não consigo evitar o sentimento de ambivalência perante tudo o que vejo: estas são as (poucas) pessoas que se dão ao trabalho de sair de casa para mostrar que não estamos anestesiados, as pessoas entre as quais me encontro e com as quais, ainda assim, pouco me identifico, na sua grande maioria.

Ouvi, antes do início do protesto, uma senhora de cabelos brancos explicar a um casal jovem que enfrentou a ditatura e que continua a sair à rua para mostrar que não tem medo, ainda que esteja preocupada com o que aí vem "para vocês e para os vossos filhos". falava com grande lucidez, dizia que "tiraram a consciência de classe às pessoas e elas nem percebem o que se passa" e questionava "nós não tínhamos liberdade e não tínhamos medo, agora vocês que supostamente têm a liberdade, têm medo de quê?". 

Achei a pergunta fascinante e, ao mesmo tempo, a resposta talvez óbvia. As gerações que nasceram em liberdade, como a minha, e em especial as pessoas dessas gerações que pertencem a uma classe média suficientemente privilegiada para terem horizontes de futuro, como eu, têm medo de perder o conforto em que estão habituadas a viver. Têm medo de perder a situação de privilégio que foi a única que sempre conheceram, e acreditam, ainda que sem disso terem consciência, que é mantendo o status quo que conseguem garantir essa situação. Julgam que se não pensarem muito no assunto, nas atrocidades que se passam longe, no outro extremo do Mediterrâneo, não poderão alcançar-nos, porque temos o suposto privilégio de estar num lugar pacífico e civilizado. Ingenuamente, preferem ignorar que o mundo do século XXI é inevitalmente interligado, e que mais cedo ou mais tarde uma espécie de efeito borboleta fará com que os problemas provocados de um lado do mundo, tenham consequências do outro lado. Mais cedo do que mais tarde, diria, porque já estamos a ver isso a acontecer.

A manifestação em Lisboa decorreu de forma essencialmente pacífica, como é apanágio dos portugueses, mas na Europa estamos já a ver manifestantes a serem agredidos pelas forças policiais, muitas vezes de forma gratuita e desnecessária, em países como Itália ou Alemanha, e outros a serem detidos por se manifestarem pacificamente em prol de associações que os governos entendem rotular de "terroristas", como acontece no Reino Unido. Vemos veteranos da 2.ª Guerra Mundial a serem detidos pela polícia por protestarem contra um genocídio e perguntamo-nos se serão imagens de inteligência artificial, já que no tempo atual temos de desconfiar até da autenticidade daquilo que vemos. 

Tentamos averiguar, procurar notícias nos jornais minimamente credíveis - e sabemos que os meios de comunicação, os jornalistas, quem faz uma mediação da informação e é responsável por verificar os factos estão sob ataque cerrado de quem pretende enfraquecer e dividir a sociedade - mas nem sempre conseguimos encontrar fontes mediáticas.

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