o tempo vai passando por nós e não sabemos exactamente o que fazer dele.
envelhecemos. pensamos que ficamos mais sábios, mas estamos apenas mais feridos.
contínua e irreparavelmente feridos.
a certa altura, sem nos termos apercebido, não conseguimos sequer separar a ferida daquilo que somos, de tal forma foi ocupando todo o espaço.
quando somos jovens, temos do nosso lado (ou deveríamos ter) a inconsciência da juventude, a intrepidez de quem não sabe que o futuro é curto e povoado de fantasmas do passado que se vão acumulando até formarem uma multidão maior do que a dos vivos que nos rodeiam. alguns de nós, porém, não chegam a ter esse privilégio.
vivem desde jovens atormentados por fantasmas que lhes são apresentados antes do tempo. os que os outros lhes impõem e os que eles próprios acabam por inventar, talvez na busca inglória de alguma companhia que lhes seja familiar.
buscamos a felicidade. imaginamo-la, mas parece que está sempre uns passos à nossa frente (e a morte sempre atrás de nós a uma distância que vai encurtando). uns anos adiante, com outras pessoas, com uma versão futura e melhorada de nós mesmos.
no fundo, talvez seja essencialmente uma questão de culpa. não sei exactamente de quê, mas desconfio que seja a culpa de não sermos perfeitos. de não sermos quem idealizámos ser e quem acreditamos que os outros esperam que sejamos.
é possível que "os outros" não esperem tanto de nós. que não estejam agarrados a uma noção de perfeição que em vez de libertar, oprime.
mas não sabemos. não temos como saber e não saberemos nunca, e essa falta de informação dilacera, principalmente as pessoas que já estão fragmentadas, esmagadas por essa culpa insidiosa e indizível.
a culpa surgiu como uma espécie de iluminação na última sessão de terapia e, de repente, é como se quase tudo fosse explicado pela sua existência.
todos os fracassos, toda a inquietude, toda a frustração, aparentemente, resultam de uma única fonte: a culpa que não se sabe onde está ou de onde vem, e por isso não se consegue agarrar.
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